segunda-feira, 23 de novembro de 2009

encosta

Tem um lugar perdido
entre o céu
e o umbigo

Onde as árvores não crescem
mas à flor da pele,
algumas flores.

Um buraco negro
que me puxa pelo braço
e me prende, me rende

Um espaço
em que me perco
percorro em horas
de aperto e abraço.

Sítio em que o tempo não passa
estou morando lá, agora.
Na superfície branca e terna
(eterna)
entre a segunda vértebra
e a clavícula.

Fiz uma casinha
no vale das omoplatas
onde, à noite, tuas sardas,
brincam de iluminar as minhas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

post mortem

Visito o baú das coisas perdidas:
Não se distingue das prateleiras.
O baú tomou o quarto.
Visito o quarto das coisas perdidas:
Quadros que tomam paredes inteiras
paredes sem beiras se tornam internas.
Há cartas cujas palavras foram lavadas
E partes de objetos tornadas invisíveis.
A poeira cobriu os lensóis.
Os lençóis, invencíveis, cobriram a vida.
Visito a vida das coisas perdidas:
à primeira vista,
memória sem pista,
o anel que tu me deste
e não lembro quem foste.

Vão-se os dedos,
ficam os anéis.

domingo, 18 de outubro de 2009

Felinae

O gato no quadro nem pisca
Eu tenho vc na risca
de giz e carvão

Mensagens de isca
por telefone
de quem não arrisca

Vc quer? fds?
eu sou arisca pra abreviação
se bobear, não petisca

Mais um domingo
sem um pingo
nos is.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

nyc

Embrulhar os pés
nas raízes
de algum arranha-céu.
esfregar a cara no asfalto.
abraçar os postes.

Misturar o corpo com a cidade.

Meu coração
de tijolo vermelho
e tinta descascando
De grama, parque
bicicleta
e café aguado

dançando
debaixo da ponte
as mãos pro alto

por qualquer trocado
que empreste
uma direção

a ponte aérea
que me
aponte

domingo, 28 de junho de 2009

brevidades

Eu me entrego.
Eu me largo de todo
para tudo que seja breve.

Na brevidade dos dias,
eu corro
e na leveza da correria
meus prantos enxugam
o peso e o estorvo.

E se das coisas mais queridas
a vida leva o desforro,
é nas despedidas que encontro os louros.
Fixo-me de partida.

O vento que carregue
toda gravidade do corpo
para faze-me pouca
em vaidade, certeza, concretude.
Tudo o que é certo,
estraga sua beleza,
enquanto aquilo que é pouco,
traz na finitude
o gôzo da sobremesa
em comeditude.

E para que a pena
não fixe no poema
com desejo satisfeito
em completude,
.
.
.

(reticências apenas)

domingo, 24 de maio de 2009

faz de conta

O mundo era da janela pra dentro
e a fumaça dos carros
era incenso
e os contratempos
bolinhas de sabão.

Faz de conta

o tempo nem passou
atravessado
num poema de atrazos

o telefone tocou
a luz acendeu
o amor chegou.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Há um terror

Há um terror escondido nos cantos
de rodapé, (lá) onde o dia acumula poeiras,
este universo onírico,
vertiginoso e sempre em
revolução –
– da queda
ao abismo invertido em que infinitamente
caimos para fora da gravidade, flutuando
(flutuando para o fundo do abismo e
caindo estarrecedoramente no céu duro);

Há um terror e um mistério:
De viver muito e isso ser
Muito pouco