segunda-feira, 20 de junho de 2011

Querência

O desejo do amor
Não cria mais
Amor.

Dor?

O desejo de sorte
Não cria mais
Sorte.

Morte?

O desejo não.
Cria mais confusão.
Não rima
Íman de não
Caber nas mãos.

Coração?

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Deu

Bem no meio
Dos lensois
Um trapo
Deitado, forçado
Mastigado e cuspido
Eu, farrapo
Depois do trato
Que você me deu
Meteu em laço
Mesmo um barato
Que foi só teu
E me fu-
Rou o coraçao

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Figuras impossíveis

Não.

A vida não é mesmo
Essa mistura
De amor e leite
Em que já nao se distingue
Se o sentimento é liquido
Ou a comida abstrata.

Não.

O agora é nunca
Pois cada vez que me adianto
Um passo
O tapete escorrega
trapaça o instante em atraso.

Não.

Dois espelhos se olhando
Nunca viverão
O infinito que carregam.
Do que sabem as imagens?
Prata, vidro, estilhaço:
Toda realidade é passível de morte.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

quando

Quando o futuro chegar
E o passo estiver no chão
E virar os sapatos dos pés
Pelas mãos

Vai ser então quando
Dissermos agora
Na hora
em que a festa virá

Virar o ano e o amor
Estará nos meus planos
Quando eu voltar a tocar
O piano
Virá a siesta e a sexta
e pelas noites seresta

Vão dedurar minha sorte
Afiarão os dedos
ressuscitando cortes

Mas assim mesmo só quando
Alguem verá que eu ando
Andorinhando em verão
Armando solo em sustenido
Então suspenso no ar
Chico Buarque cantando
em um sussurro gemido

To me guardando pra quando
o carnaval chegar

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

para não

Para não
perder
se em
transe
abrace
a tontura

Para não voar,
na fissura
o chão

Para não
correr
o risco
da palavra
pura
mente
dura,

Para durar,
aprender o não.

Disfarce a flor
na doçura
de um alface.
puxe a cor
que toda superficie
costura

como gente
que em vão
não se esquece
para não
parar
o coração

Enlace.

domingo, 10 de outubro de 2010

a ordem das coisas

No cartório está descrito
Marcado no concreto do escrito:
Nascimento, casamento, Morte.

Ora mas que sorte!
A ordem das coisas
já fixou seu norte?

Nascer, crescer, envelhecer...
E se quiser rebubinar a fita?
A vida, uma linha torta,
embolada, infinita,
que importa?!
É de deixar aflita!
Começar morta,
se já antecipam a escrita.

Deixem o acaso escrever.
Amar, nascer, envelhecer e casar
antes do encontro, e ter um caso,
um flho e um nome,
um brilho no olho do homem.

Que delícia o vai e vem!
Saber logo na saída
qual era o fluxo do trem.

Afinal aquela escala,
sistema métrico de história
veio de quem?
qual memória?

que delícia a desordem!
os incomodados
que se mudem.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Grãos

Grãos
De afeto refeito
Certos desse circo
Sem jeito
Em querer perto.
Aperta no peito
Circulo de concreto
É defeito
Dor-objeto.
Não digo mais
Não
A não ser
Se não me deres
As mãos
Gotas
Dágua dura
Pingam na pedra
De um coração
Em pirraça
Birra pura,
Não disfarça
Me caça, me cura
Feito atadura
Encaixe perfeito
Me abraça.